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leitor ideal

leitor ideal

01 Set, 2021

Preciso de escrever

A motivação mais profunda, e não diretamente expressa, para a criação deste blog foi a minha necessidade de criar uma rotina de escrita - a qual por sua vez possibilitará a concretização das outras motivações associadas à "arte da escrita". Mas receio que o meu caso seja mais grave do que isso, já que escrever e viver são dois verbos que me estão intimamente ligados.

Algures na semana passada iniciei uma prática meditativa que figura entre as muitas e muito úteis descritas no livro "Senta-te quietinho como uma rã", de Eline Snel, com prefácio de Jon Kabat-Zinn (os praticantes das artes meditativas devem conhecer o nome), que comprei para os meus netos de 5 e 12 anos (a ver se eles começam a praticar meditação).  Este exercício consiste na visualização duma árvore benfazeja habitada por várias pombas. A cada dia podemos pedir um desejo a uma dessas pombas - e ela irá recolher esse desejo do nosso coração e levá-lo consigo pelos céus fora, sabe-se lá até onde, até ao horizonte, até ao infinito. Tenho noção de que isto é bastante infantil, mas não precisaremos nós, por muito adultos que sejamos, de ser ainda e sempre crianças, pelo menos em algum lugar mais ou menos oculto do nosso coração?

Mas vamos ao que interessa. O que eu quero contar é que numa dessas visualizações formulei o pedido de "voltar a viver plenamente" e entreguei-o à minha amiga pomba que o levou até ao tal sítio-não-sei-onde. No dia seguinte abri um outro livro que também comprei recentemente (pela parte que  me cabe, a fnac tem lucrado bastante com a pandemia), "O Zen e a arte da escrita", de Ray Bradbury, e , logo no prefácio, deparei-me com:

"... E o que nos ensina a escrita, perguntarão vocês?

" Antes de mais, recorda-nos que estamos vivos e que isso é uma dádiva e um privilégio, não um direito. Quando a vida nos é concedida, há que merecê-la. A vida animou-nos e, por isso, exige recompensa.

"Certo, a arte não é capaz de nos salvar da guerra, da fome, da inveja, da ganância e da morte, como gostaríamos que o fizesse, mas, mesmo assim, pode revigorar-nos pelo meio de todas essas coisa.

"Em segundo lugar, escrever é sobreviver. Toda a arte, tudo o que for bem feito, é isso, claro.

"Para a maioria de nós, não escrever é morrer."

 

Foi uma revelação ou, pelo menos, uma wake-up call. Uma coincidência ou um milagre? Acho que nunca vou saber, mas também não tem muita importância.

O que tem importância é que espero estar hoje a dar início à parte mais difícil das revelações: a sua aplicação na vida de todos os dias. Que é aquela que nos impede de morrer.

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