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leitor ideal

leitor ideal

"O leitor ideal quer chegar ao final do livro e ao mesmo tempo saber que o livro jamais terminará."

                                         "À mesa com o chapeleiro louco" - Alberto Manguel

 

Em finais de agosto de 2020 recebi, numa das minhas encomendas de livros que se tornaram regulares com a pandemia, o livro de Stephen King "Escrever - Memórias de um Ofício" e, se espremer bem a minha própria memória, devo admitir que a génese deste blogue remonta na verdade a essa altura, ao contexto da pandemia e à experiência da leitura deste livro.

Não deixa de ser curioso que, num livro que tem por título "escrever", o autor apresente o conceito de "leitor ideal" - aquele para quem escrevemos, aquele que honra a nossa escrita com o desafio que nos apresenta de darmos o nosso melhor nos textos que escrevemos. É que ler e escrever participam de um diálogo perpétuo. Quem escreve precisa de ser lido, porque é para isso que escreve. E quem lê re-escreve o texto e sente o apelo, e o impulso, de criar outros textos.

Tudo isto se veio tornando por demais evidente durante esta pandemia que ainda não chegou ao fim. Os livros têm sido os grandes companheiros dos meus dias e, ao mesmo tempo, os instigadores da minha vontade de escrever - da minha vontade de diálogo, nem que seja apenas com um leitor ideal. Que eu também sou, que cada um de nós também é, numa comunidade virtual em constante respiração, partilha  e troca.

Uma noite destas, ouvi um fragmento duma entrevista de Maria do Rosário Pedreira à Antena 2, em que ela se referia ao respetivo blogue e às razões para o manter, sendo uma das mais centrais a de manter a disciplina do ato de escrever. Essa é a minha razão fundamental também: gosto de escrever, preciso de escrever, mas preciso de motivação para ir escrevendo. Para converter "a espuma dos dias" (Boris Vian) na "soma dos dias" (Isabel Allende) - para que algo fique dos dias. Para que algo chegue a alguém. Para que algo chegue de alguém. Para essa construção.

Não sou como Stephen King. Ainda preciso de transformar a vontade de escrever em ofício de escrever e foi por essa razão que criei este blog. Mas, como ele, também eu acredito nas potencialidades sem fim e no imenso poder do "leitor ideal". E a ele confio os meus textos, este e todos os outros que aqui se lhe seguirem.