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leitor ideal

leitor ideal

Dou hoje início à minha resposta ao desafio de escrita de que falei no último post.  É um desafio de 30 dias de escrita consecutiva, que se desenrola assim:

1. Uma memória feliz                                        16. Um desafio empolgante

2. Um lugar querido                                           17. Um gesto inspirador

3. Um momento de coragem                           18. Uma pergunta intrigante  

4. Uma pessoa amada                                       19. Uma tarde de domingo

5. Um objeto quotidiano                                    20. Uma fruta mordida

6. Um sonho recorrente                                     21. Um sopro de esperança

7. Uma música favorita                                        22. Uma discussão boba

8. Um rito de passagem                                     23. Um prazer inenarrável

9. Uma experiência triste                                   24. Uma caminhada curiosa

10. Uma descoberta infantil                              25. Um adormecer tranquilo

11. Uma nuvem no céu                                       26. Uma obra de arte

12. Uma vista da janela                                       27. Um equívoco consertado

13. Um animal de estimação                              28. Uma esquina marcante

14. Uma previsão do futuro                                 29. Um beijo de amor

15. Um medo forte                                                 30. Uma metáfora para a vida

Se calhar há temas que não me vão inspirar e eu nem sequer saberei o que dizer acerca deles, mas assumo o desafio e comprometo-me a escrever sobre cada um deles, mesmo que acabe por escrever sobre outra coisa qualquer (faz-me lembrar os cursos de escrita criativa que fiz: nunca se sabe o que vai acontecer) e  mesmo que isso me cause algum desconforto - se fosse confortável não era um desafio.

Vou então começar hoje, com

O pacto com as buganvílias

Estamos em meados de outubro, o que me recorda os primeiros dias de outubro dos meus anos no liceu (eu sou antiga, naquele tempo ainda não era "escola secundária", era liceu). Eram dias de profunda magia, porque eram dias de retorno e de re-começo, ainda o mês eram jovem e fresco e trazia agarradas aos cabelos-raio-de-sol as reminiscências de sal e vento de todo o verão que o antecedera.

Eram dias de entusiasmo pelo reencontro com as colegas e os amigos (sou mesmo antiga: no liceu eram mesmo só as amigas, no café da esquina da Guerra Junqueiro com a Alameda é que eram os amigos), pelos livros e cadernos novos, pelas novas rotinas - e também já de alguma nostalgia pela liberdade irrestrita do verão, entretanto perdida.

Por isso eu ansiava pelo "intervalo grande", o intervalo de 20 minutos a meio da manhã que nos dava tempo de descer até ao pátio e andar a passos largos e correr e falar mais alto do que entre as paredes dos imensos corredores ou das salas de aula. Era essa a permissão que o ar livre nos dava.

O pátio era enorme, quadrangular e com um chão de alcatrão cinzento. Não teria portanto nada de especial, não fora a profusão de buganvílias que se estendia sobre a cobertura. Buganvílias em ramadas densas, cor de rosa quase-choque, como gritos de alegria sobre a monotonia amarelada e velha das paredes. Buganvílias que viviam ainda no começo do outono e que, como um perfume que eu sorvia sofregamente, não só me recordavam as cores e a liberdade perdida do verão como me propiciavam um breve reencontro com elas.

Foi com as buganvílias-de-outubro-do-liceu que aprendi a perceber os rituais que a natureza encena para a mudança das estações e a amar a própria mudança - e o eterno retorno de todas as coisas. Tenho muitas memórias, felizes e infelizes, mas, das felizes, as nossas melhores memórias são aquelas que podemos ciclicamente reatualizar, num convite ao retorno da alegria e da esperança.