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leitor ideal

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O Mishimi

era um gato amarelo e branco, jovem, muito magro e ágil. Num fim de tarde, por altura do recomeço do ano letivo, seguiu a Catarina quando ela voltava da escola para casa e por lá ficou.

Ao princípio era um gatinho, adorável como todos os gatinhos, depois foi crescendo, carente e caprichoso, sempre adorável. Talvez por isso me tenha custado tanto a morte dele - sei que foi num dia 1 de Abril, mas não me lembro do ano. Afinal, ele não era meu, era da minha filha entre o fim da adolescência e o começo da juventude.

Mas mantínhamos as duas algumas cumplicidades em relação a ele. O nome, por exemplo. Pouco antes daquele recomeço das aulas  tínhamos viajado as duas para a casa da João em Amesterdão, com passagem pela casa da Annie em Paris. A Annie tinha um majestoso gato cinzento escuro que se chamava Mimishi e o nome do Mishimi foi escolhido por influência do gato parisiense, não sem algum snobismo pelo meio (já a João, que também sempre gostou do folclore indiano-hindu/budista, tinha uma gata miúda e esquiva que dava pelo nome de Shanti).

Naquele dia 1 de Abril, depois de a Catarina me dizer que o Mishimi tinha morrido na clínica veterinária com uma infeção urinária, andei como que perdida e sonâmbula entre os meus afazeres e as ruas soalheiras de Lisboa, com o coração apertado e sem saber que tempo era aquele - só sabia que naquele dia era impossível que fosse primavera.

Pascoal, Diógenes & Sucessores

Não, não é a denominação - se o fosse, seria bastante insólita - de alguma sociedade industrial ou comercial, é o nome que encontrei para a linhagem dos nossos animais de estimação, meus e da Catarina, que teve no Mishimi o último representante e que foi iniciada precisamente pelo Pascoal, um cágado, quando eu tinha sete ou oito anos;  uma dezena de anos depois foi continuada pelo Diógenes, um peixinho dourado. Foram os meus únicos animais de estimação.

Porque na verdade eu nunca gostei de ter animais de estimação. Aquela coisa que eu costumava ouvir aos adultos, quase sempre mulheres, quando falavam dum animal, quase sempre um cão: "só lhe falta falar!...", pois era precisamente isso que me fazia impressão e travava os meus incipientes impulsos zoófilos. Parecia que quanto mais próximos eram os animais, mais estranhos se tornavam - e se de repente desatassem mesmo a falar? (e ainda eu não tinha feito as minhas incursões pelo budismo tibetano: eu podia muito bem já ter sido um animal, precisamente um cágado ou um peixinho dourado - ou o Mishimi podia ter sido, ou vir a ser uma pessoa. Cada vez mais estranho.)

Por isso, tive apenas dois animais de estimação, confortavelmente diferentes e distantes - eu no meu mundo e eles no deles, ou, como se diria agora, eu na minha e eles na deles, o que, convenhamos, é bastante mais expressivo e, por ser tão vago, bastante mais abrangente.

O Pascoal e o Diógenes foram só os antepassados, e o Mishimi o último representante, da linhagem de animais de estimação que a Catarina, alheia às minhas inquietações mais ou menos filosóficas e  mais ou menos fantasiosas, foi colecionando desde a infância:

das ninhadas sucessivas de hamsters,  que chegaram a reunir 22 elementos ao mesmo tempo, passando pelos dois periquitos, o Fernão e o Didu, que pareciam adorar poisar no poleiro dum grande, colorido,  papagaio de pano, e pelo coelho Fagundes (que dava enormes saltos no ar e um dia deu um desses saltos na casa de banho e caiu dentro da sanita, que estava com a tampa levantada) - até ao passarinho bico-de-lacre que de certeza tinha nome mas eu não me lembro -  e que um belo dia o Mishimi conseguiu comer. Realmente ele passava horas sentado a mirar a gaiola e, parecia-me a mim, a babar-se, e lá acabou por conseguir tirar o pasarinho de lá, depená-lo às três pancadas e devorá-lo, deixando o chão do quarto da Catarina atapetado de penas e, a um canto, quase sem se verem, um minúsculo coração e os restos do pequeno esqueleto que não engoliu.

Eu estava sozinha em casa e apressei-me a varrer e aspirar tudo muito bem, para que a Catarina não visse aquele cenário apocalítico (pelo menos do ponto de vista do infeliz passarinho) quando chegasse. Mas vários dias depois ainda aparecia uma ou outra pequena pena que tinha escapado à minha limpeza.

E só ficou mesmo o Mishimi, até ao infeliz desenlace que contei no princípio.

 

Agora a Catarina tem três filhos pequenos e nenhum animal de estimação, mas é  possível que volte a ter, um ou mais, quando os filhos estiverem crescidos.

Já eu, não posso jurar, mas acho que eu não, nunca mais, muito obrigada.