Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

leitor ideal

leitor ideal

Quando li pela primeira vez o título deste dia, a primeira coisa que pensei foi: mas eu não posso escrever sobre uma nuvem - para  mim as nuvens são sempre assim, no plural.

Mas o tempo foi passando e lá fui matutando sobre o que é que havia de escrever. Então, um belo dia ocorreu-me que, sim, existiu

Uma nuvem singular

em duas ocasiões, uma terrível nuvem única, primeiro em Hiroshima e depois em Nagasaki, no Japão. Duas singulares nuvens monstruosas, de produção humana, nuvens que subiram no céu com origem em explosões na terra - duas singulares nuvens "cogumelo". Da Wikipédia:

Os bombardeamentos atómicos das cidades de Hiroshima e Nagasaki foram dois bombardeamentos realizados pelos Estados Unidos contra o Império do Japão durante os estágios finais da Segunda Guerra Mundial, em agosto de 1945. Foi o primeiro e único momento na História em que armas nucleares foram usadas em guerra e contra alvos civis.

Em agosto de 1945, o Projeto Manhattan dos Aliados tinha testado com sucesso um artefacto atómico e produzido armas com base em dois projetos alternativos. A bomba atómica de urânio (Little Boy) foi lançada sobre Hiroshima em 6 de agosto de 1945, seguida por uma explosão de uma bomba nuclear de plutónio (Fat Man) sobre a cidade de Nagasaki em 9 de agosto. Dentro dos primeiros 2-4 meses após os ataques atómicos, os efeitos agudos das explosões mataram entre 90 mil e 166 mil pessoas em Hiroshima e entre 60 mil e 80 mil seres humanos em Nagasaki; cerca de metade das mortes em cada cidade ocorreu no primeiro dia. Durante os meses seguintes, muitos morreram por causa do efeito de queimaduras, envenenamento radioativo e outras lesões, que foram agravadas pelos efeitos da radiação. Em ambas as cidades, a maioria dos mortos eram civis, embora Hiroshima tivesse muitos militares.

Em 15 de agosto, poucos dias depois do bombardeio de Nagasaki, o Japão anunciou a sua rendição aos Aliados. Em 2 de setembro, o governo japonês assinou o acordo de rendição, encerrando a segunda Guerra Mundial. O papel dos bombardeios na rendição do Japão e a sua justificação ética ainda é motivo para debates.

Entretanto, enquanto estava a escrever isto, lembrei-me do tema "A Rosa de Hiroshima" de Ney Matogrosso, que deixo aqui.

 

Porém e felizmente, continuam sempre a existir as nuvens plurais, aquelas em que penso e de que gosto, no céu e não só.

As nuvens metafóricas

Fui a um video do meu curso "Joy of Living" procurar as palavras do meu mestre Mingyur Rinpoche sobre este tipo de nuvens:

A consciência é como o céu que acomoda as nuvens, as tempestades, os estados do tempo... Deixa-os vir, deixa-os ser e dissolver-se... Todas as sensações e sentimentos são como as nuvens. Às vezes existe uma bela nuvem, outras vezes uma nuvem muito feia, às vezes há uma tempestade, um tornado, um furacão... mas está tudo ok: o céu continua livre, porque é impossível mudar a natureza do céu; outras vezes o céu está completamente azul com o sol a brilhar -  a natureza do céu não muda. Mesmo que o céu tenha ficado completamente escuro, sem sol nem lua, completamente coberto de nuvens, a essência do céu não pode ser mudada pelas nuvens ou pela escuridão. O céu é sempre livre, está sempre lá, é puro... A vossa consciência é exatamente assim. Mas muitas vezes não reconhecemos a consciência e estamos perdidos nas nuvens: sentimentos, pensamentos e sensações.

E as nuvens naturais, oh, as nuvens!...

Adoro ver e, arrisco-me a dizer, sentir as nuvens que povoam o céu de acordo com as estações e os meses do ano: as alegres e finas, raras nuvens de verão; as nuvens cinza-claro que se aninham todas juntas para preencher os céus baixos de dezembro, quando ainda não está muito frio e, sobretudo, as grandes e espessas nuvens de abril, empurradas pelos ventos fortes desse mês, parecendo vir do mar, eivadas de azul  e túrgidas de aguaceiros e primavera - são elas que assinalam o retorno do tempo bom e das vastidões de céu azul e limpo,  iluminado pelo sol e pela lua.

Eu devia ter 10 ou 11 anos, mas lembro-me bem: era uma daquelas tardes subitamente quentes e resplandecentes de sol no início da primavera, em que uma inquietação morna nos percorre, repleta da vontade de algo radicalmente diferente, uma insatisfação repentina que nos faz desejar, absolutamente, uma nova descoberta, uma inédita aventura.

A re-descoberta do princípio da câmara escura

Eram umas 3 da tarde e eu estava sozinha em casa e vagueava pelas divisões ensolaradas sem saber o que fazer.

Em algum ponto das minhas deambulações, resolvi investigar o que se passava lá fora. Encostei o nariz à porta de casa e espreitei pelo óculo.

A porta da minha casa dava para a grande porta envidraçada da rua, por onde entravam a imensa luz do sol, os automóveis e as pessoas, mas eram o sol, os automóveis e as pessoas de todos os dias.

Só que, quando me afastei da porta e. não sei por que acaso, olhei para a parede oposta, vi minúsculas e nítidas figuras de automóveis e pessoas desfilarem, de pernas e rodas para o ar, ali, na parede do meu hall de entrada! Era um presente do sol, cuja luz, ao entrar pelo orifício do óculo da porta, refletia as imagens da rua invertidas.

Foi um consolo da minha insatisfação e inquietação, um dos maravilhosos presentes que a vida às vezes nos oferece quando menos esperamos, que me restituiu a calma habitual dos dias numa resplandecente tarde de sol primaveril.