Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

leitor ideal

leitor ideal

Com o desafio de 30 dias de escrita terminado, voltei ao ponto de partida: escrever sobre quê? Quando comecei, não sabia. Foi por isso que abracei aquele desafio, como um náufrago se agarraria a uma boia. Na verdade, apenas sabia que queria e precisava de escrever, mas não tinha qualquer tema nem forma concreta em mente. E o desafio veio a revelar-se uma experiência muito proveitosa. Este blogue foi, basicamente, sobre não saber o que escrever e reencontrar-me apenas comigo (...)
Eis-me chegada ao último dia deste desafio de escrita - e o desafio de hoje consiste em encontrar uma "metáfora para a vida". Desafio e vida surgem-me, assim, ligados e parece-me que este desafio de escrita e, mais genericamente, o desafio de escrever, constituem, eles próprios, uma adequada metáfora para a vida. No pain, no gain Escrever custa (-me). Não é nenhum paraíso, nenhuma terra de leite e mel em que poderia comprazer-me sob as brisas amenas da inspiração, da (...)
A Felicidade A felicidade sentava-se todos os dias no peitoril da janela. Tinha feições de menino inconsolável. Um menino impúbere ainda sem amor para ninguém, gostando apenas de demorar as mãos ou de roçar lentamente o cabelo pelas faces humanas. E, como menino que era, achava um grande mistério no seu próprio nome.                                                                                         Jorge de Sena (...)
Vivi, desde que nasci até aos meus dezassete anos, no número sessenta da Alameda D. Afonso Henriques, de esquina com a Actor Isidoro, esquina essa que, da infância, viria a marcar toda a minha vida. O meu pai era o porteiro do prédio, algo que eu não podia esquecer nunca - nem quando recebia uma carta com o endereço "Alameda D. Afonso Henriques, nº 60 - r/c (porteiro)", nem de todas as vezes em que me cruzava com algum inquilino no quase sumptuoso átrio do prédio e tinha de lhe (...)
A única diferença entre um buda e qualquer outra pessoa é que, ao contrário de todos os seres que sofrem no samsara, um buda reconhece a sua própria natureza verdadeira.                                                                                   - Mingyur Rinpoche Há equívocos que levam muito tempo a consertar, alguns quase uma vida inteira. Desde que me conheço enquanto criatura pensante e (...)
Árvores e Vegetação Rasteira, Julho de 1887: depois de várias tentativas junto do google, dignas de um verdadeiro detetive, descobri que  é este o título do quadro perante o qual se me encheram os olhos de lágrimas, no museu Van Gogh, quando lá estive há já muito tempo, no final do século passado. Ainda hoje não consigo explicar o que me comoveu tão profundamente. A extrema solidão  dum mundo vegetal, sem ruas, nem casas, nem pessoas - e nem céu nem sol tão pouco, e (...)
Foi há um par de anos, por esta altura, que eu, pouco dada à atividade física, senti o apelo de limpar e arrumar a minha pequena casa de alto a baixo. É a altura do ano, entre os últimos dias de Janeiro e os primeiros de Fevereiro, em que já estamos cansados do inverno, da longa imobilidade dentro de portas e da acumulação de coisas que vamos deixando acontecer durante essa imobilidade. É a altura do ano por volta da entrada do sol em Aquário, no dia 20/21 de Janeiro, em que (...)
O Caminhante Solitário Na sua obra de 1998, O Caminhante Solitário (Ed. Teorema, 2009), W. G. Sebald (Wertach im Algau, Alemanha, 1944 - Dezembro de 2001), convida-nos a encetar com ele uma curiosa caminhada pela paisagem pré-alpina, região de onde são oriundos todos os artistas sobre quem escreveu, bem como ele próprio, e que visitou alguns anos antes da sua morte.  Dedica cada um dos seis capítulos do livro a cada um desses artistas, destacando-se de entre eles o artigo (...)
O meu pequeno-grande prazer diário prende-se com o desafio do 5º dia, o "objeto quotidiano" que descrevi aqui no dia 7 de Novembro de 2021. A saber, o objeto é a caneca em que bebo o meu café matinal, e o prazer é o respetivo conteúdo, o café, claro. Confesso: o café e aquilo que faço enquanto o bebo constituem o "prazer inenarrável" com que inicio os meus dias. Desde que estou confinada em casa à espera da operação ao joelho, que nunca mais chega - disseram-me em Janeiro, (...)
(este desafio deve ter tido origem no Brasil. Entenda-se, em português de Portugal: uma discussão parva)   Filha quase-única (os meus três meio-irmãos eram muito mais velhos do que eu) dum pai abusivo, sempre tive tendência para evitar confrontos e discussões: o resultado podia ser bastante mau para mim. Na idade adulta, fiquei presa durante muitos anos  num casamento igualmente disfuncional, que quase me destruiu emocionalmente. Assim, não tenho memória de discussões (...)